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Tenda dos Milagres

abr 10

Este ano comemoramos o centenário de Jorge Amado. Apresentar o escritor é chover no molhado de clichês que infestam as matérias sobre a data.
O que não deixa de ser verdade, mesmo sendo um clichê, é que Amado inventou uma Bahia cada dia mais difícil de ser encontrada, se é que um dia ela já existiu.
Entre opiniões de defensores e detratores, e olhe que são muitos, e não é meu interesse discutir a obra do escritor, sobram histórias sensacionais como Capitães da Areia, Jubiabá, Dona Flor e seus dois Maridos, A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, Os Pastores da Noite e por aí vai. Falo dos livros passados em Salvador porque foram os que eu li, na minha eterna busca de encontrar a Salvador perdida em nossa memória afetiva. Quem me conhece sabe do que estou falando. Dos livros passados em Salvador, o que mais gosto é Tenda dos Milagres. Por vários motivos, que como falei, não vou discutir neste espaço. Destaco resumidamente dois fatores: o primeiro, a construção do romance, com a história se passando em dois tempos distintos; e o outro, a crítica mordaz a esse monstro que genericamente chamamos de “mídia”. Pra quem não leu ou não conhece, um pequeno resumo: por conta da passagem de um célebre etnólogo americano por Salvador e sua admiração por Pedro Archanjo, arma-se um circo pra comemorar o centenário do célebre baiano.
Detalhe, ninguém na Bahia sabe quem é Pedro Archanjo. Pronto. Está armado o palco pra Amado deitar e rolar com sua crítica à sociedade baiana do período em questão. A saber: o ano de 1969. E uma das áreas mais criticadas pelo romancista é justamente a publicidade. Sem dó nem piedade, Jorge Amado reduz a pó nossa profissão ou a imagem cheia de clichês que a atividade publicitária carrega. Óbvio que o escritor compartilha dessa visão que a sociedade tem do publicitário, então a crítica termina sendo mais direcionada aos ditos clichês do que a realidade de nossa profissão. Mas duvido que lendo o trecho abaixo da obra em questão o leitor-publicitário não reconheça algum colega de profissão, ou pelo menos alguma característica de alguém que pode estar sentado do nosso lado agora.

Boa leitura, garanto que vocês vão se divertir. E boa reflexão.

Carlos Mattos “Chacal” – Diretor de Arte

O rosto cheio, aparentando energia e eficiência, rompendo-se afável em riso e palavrões, frondosos bigodes e evidente começo de calvície, sinais de prematura obesidade e camisa molhada de suor, Gastão Simas, gerente para a Bahia da Doping Promoção e Publicidade S.A., dirige-se a seus auxiliares, grupo compacto integrado por cinco capacidades, cinco ases, cinco imbatíveis, e lhes comunica os resultados da reunião da Comissão Executiva responsável pelas comemorações do centenário de Pedro Archanjo. Agora, cabe a eles, àqueles cinco crânios regiamente pagos, colocar de pé o outro lado da promoção, o único a contar verdadeiramente: o empresarial, o dos anúncios, o que possibilita a grana, o faturamento. Gastão Simas rola na boca, sob os bigodes, a palavra chave: faturamento tem-se a impressão que degusta ambrosia ou caviar, um gole de vinho de cepa rara: ¬ O espaço de cinco páginas, em cada suplemento de oito, é reservado aos anúncios. O quarto e último suplemento terá doze páginas e nos caberão de sete a sete e meia, poderemos chegar até oito, se necessário. Ademais, meus queridos, não devemos nos limitar aos suplementos. O campo é livre, é preciso soltar a imaginação, criar, ser artista! Ao trabalho, meus filhos, sem perda de tempo. Quero resultados concretos em prazo mínimo. Eficiência e qualidade é o nosso lema, não se esqueçam. Tendo dito, retorna a seu gabinete, aderna na poltrona. Gastão Simas era homem de qualidade e eficiência; trabalhador, inteligente, imaginoso. Quando entregue ao exercício da autocrítica, via-se no entanto obrigado a constatar não ser aquele o ofício para que nascera, o meio-de-vida capaz de apaixoná-lo. Exercia-o por necessidade e vanglória: proporcionava-lhe alta remuneração e prestígio social. Por seu gosto, continuaria na banca do jornal onde começara ganhando aviltante salário mas desobrigado dessa máscara de pró-homem tão pouco adaptável a seu rosto prazenteiro, folgazão, para quem o prazer da vida era uma partida de dominó na porta do Mercado Modelo, um trago e uma festa, um bate-papo sem compromisso. “Sou baiano demais para essa profissão”, confessara certo dia a um dos seus rapazes, o jovem Arno, simpatia de carioca e um clássico da propaganda. Que fazer? Ora, que pergunta, meu bom Gastão: fazer das tripas coração, a gerência da Doping significa dinheiro grande e status invejável. Impotente servo em sua sala, GS fita a paisagem do golfo, o forte do mar, a ilha verde e os barcos em pacífica travessia. A sala é uma ostentação de riqueza e de poderio ¬ móveis de jacarandá, tapete de Genaro: um pássaro audaz, um inseto cruel de Mário Cravo, em madeira e ferro, e a fulva secretária. Profissão por profissão, arte por arte, ainda é esta a mais rendosa. A arte principal do nosso tempo. Todos sabemos, e nem o mais ordinário dos patifes se atreve a contestar, ser a arte da propaganda a mais eminente e augusta: nenhuma se lhe compara ¬ nem a poesia, nem a pintura, nem a novelística, nem a música, nem o teatro, sequer o cinema. Quanto ao rádio e à televisão, pode-se dizer serem parte intrínseca da propaganda, sem existência autônoma. Pintor algum possui a técnica criadora dos plásticos da publicidade: nas agências pululam os Picassos. Não há escritor capaz de igualar-se aos que redigem anúncios; não há estilo, em prosa e verso, com os recursos de imaginação, o realismo e o surrealismo, a comunicabilidade desse textos das agências onde dúzias de Hemingways criam a nova literatura. De que vale esconder a verdade se ela se impõe à luz do sol, fulgurante e vital? Da propaganda dependem inclusive os Picassos e os Hemingways, muitos deles fabricados nos escritórios de publicidade, que os projetam e popularizam num abrir e fechar de olhos. Durante uns meses, pelo menos, o nome do pintor ou do escritor permanecerá no aplauso. E na admiração das massas e dos basbaques. Desaparece, depois, afinal ninguém é Deus para tirar do nada literatos e plásticos, e mantê-los interminavelmente na crista da onda e nas colunas! Mas o promovido teve seu momento, sua oportunidade, tanto maior quanto mais possa dispender. O resto é problema deles, é saber administrar-se: basta lançar a vista pela praça das vaidades para perceber-se a maciça afluência daqueles vigaristas, daqueles sabidórios nascidos nas chocadeiras das agências e que, bem gerenciados em sua falta de talento, em sua sem-valia, brilham e faturam na maciota, sem ter de se matar em duas Faculdades e em várias turmas maratona para quadrados e tolos, tipo Calazans, sem o menor préstimo para o arrivismo indispensável, para a pilantragem, expressão maior de nossa época, de nossa admirável, benemérita, nunca suficientemente louvada sociedade de consumo. Arno, aquele raio de menino, importado do Rio, pena molhada em uísque escocês legítimo, foi o primeiro a deslumbrar Gastão Simas com o resultado de dois ou três dias de trabalho intenso, de reflexão profunda, ilimitada fantasia. Colocou em cima da mesa do big shot a folha de papel e nela estava escrito em grandes caracteres este genial achado: “Traduzido ao inglês, ao alemão, ao russo PEDRO ARCHANJO É FONTE DE DIVISAS para o engrandecimento do Brasil também é fonte de divisas A COOPERATIVA DOS EXPORTADORES DE CACAU”.  Fenômeno! ¬ aplaudiu Gastão: ¬ Você é o maior. Outros resultados, igualmente grandiosos, se sucederam, mas há de reconhecer-se a prioridade de Arno, jovem príncipe da publicidade, bárbaro talento, salário de meia congregação de uma Faculdade. Vale a pena relembrar, em benefício do alevantamento cultural dos leitores, alguns dos textos de maior sucesso: “Brinde o centenário de Archanjo com chope Polar”. “Se fosse vivo Pedro Archanjo escreveria seus livros com máquinas elétricas Zolimpicus”. “No ano do Centenário de Archanjo, o Centro Industrial constrói a nova Bahia”. “Em 1888 nasceram dois gigantes na Bahia: Pedro Archanjo e a Archote Seguros Ltda.” Não satisfeito com o triunfo inicial, Arno, criou outra maravilha ¬ a transcrição diz melhor do que qualquer adjetivo: “Archanjo anjo estrela estrela stela stela CASA STELA CASA STELA há quatro gerações calça anjos e arcanjos em cinco suaves prestações.” Foi ele próprio, gentil e contente de sua criação, levá-la ao Cliente, o proprietário do negócio de sapatos, que o recebeu de evidente mau humor  estava fazendo regímen para emagrecer e não há coisa pior para o caráter dos indivíduos. O tipo, um cinqüentão de espessas sobrancelhas e anel de grau, mediu a elegância do peralta, sua fleugmática suficiência, balançou a cabeça com desesperança, disse: ¬ Sou um velho, alquebrado e faminto, o senhor é jovem, bonito, elegante, com bafo de uísque e acarajé, sábia combinação; mas permita que eu lhe diga: seu anúncio é uma bosta, Disse de tal maneira, com tão falsa humildade e brusca violência, que Arno, em vez de se ofender, caiu na gargalhada. O Cliente detalhou: Meu fidalgo, as Casas Stela são três, não apenas uma como o anúncio dá a entender. E nem de uma sequer seu anúncio revela o endereço. Não fala de sapatos ¬ meu comércio é de sapatos, digo para seu governo, creio que o senhor não sabia. Há, em verdade, leve referência ao assunto, o verbo calçar na terceira pessoa do indicativo: “calça”, facilmente confundível com calça e paletó. Ficaste sem saber se é loja de sapatos ou alfaiataria. Aqui entre nós, eu faço melhor e mais barato. Não foram às bofetadas, desiludindo mais uma vez os empregados, sempre na esperança de ver um dia o patrão embolar em luta corporal; ao contrário, juntos retrabalharam o texto e depois partiram rua a fora, no fim da tarde, quando a viração chega do mar e sobe pelas ladeiras. “Gosta de antiguidades?”, perguntou-lhe o comerciante. “Sou mais do modernismo”, confessou Amo, mas foi com o rabujento aos antiquários, em ruelas e becos pela primeira vez entrava num bric-a-brac. Viu lampiões arcaicos, navetas de prata, anéis, jóias mirabolantes, bancos e marquesas, pinhas de cristal, gravuras de Londres e de Armsterdam, um oratório pintado à mão e um santo de madeira, antigo. Amo obteve de súbito o condão da beleza. No dia seguinte, no escritório, sujeitando o layout reformulado à aprovação final de Gastão Simas, Arno Melo lhe disse: Meu velho, você é quem tem razão: na Bahia não há clima para esse troço, não dá pé. Se eu tivesse um jeito, largava essa merda, ia bater pernas pelas ruas. Me diga uma coisa, Gastão: Você já viu a fachada da Igreja da Ordem Terceira?  Porra!, menino, eu nasci aqui. ¬ Pois eu já fiz um ano de Bahia, já passei por ali mais de mil vezes, e nunca tinha parado para reparar e ver. Sou um cavalo, seu Gastão, um animal, um infeliz, um filho-da-puta de agência de publicidade. Gastão Simas suspirou: assim não era possível.

Autor – Jorge Amado

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Ederaldo Gentil – um baiano esquecido pelo tempo

abr 02

Na semana em que completou 463 anos, sem muito o que comemorar, Salvador perdeu um de seus grandes compositores.
Ederaldo Gentil morreu dia 30 de março, aos 68 anos, esquecido, como de costume nesta terra de meu Deus.
Nesse momento difícil da história de nossa cidade, onde se discute a Lei Antibaixaria, ouvir “ O Ouro e a Madeira” é como segurar um fiapo de esperança e acreditar que esta cidade ainda pode gerar artistas desse quilate e resgatar um pouco de nossa dignidade perdida.

Carlos Mattos “Chacal” – Diretor de Arte

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Gregório de Matos Guerra — O “Boca do Inferno”

mar 29

_____

No dia do aniversário da cidade homenageamos aquele que foi o seu maior poeta. O “Boca do Inferno” Gregório de Matos Guerra – Nascido em Salvador.

DEFINE SUA CIDADE

De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

TRISTE BAHIA

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

EPILOGO (Soneto)


“Que falta nesta cidade?…………….Verdade
Que mais por sua desonra?………..Honra
Falta mais que se lhe ponha……….Vergonha.O demo a viver se exponha,

Por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio?……….Negócio
Quem causa tal perdição?………….Ambição
E o maior desta loucura?……………Usura.

Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos?….Pretos
Tem outros bens mais maciços?…..Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?…Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?…Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?………Guardas
Quem as tem nos aposentos?………Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos.

E que justiça a resguarda?………….Bastarda
É grátis distribuída?………………….Vendida
Que tem, que a todos assusta?…….Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia?………………Simonia
E pelos membros da Igreja?……….Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?…..Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica,
é Simonia, Inveja, Unha.

E nos frades há manqueiras?………Freiras
Em que ocupam os serões?…………Sermões
Não se ocupam em disputas?………Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou?………………Baixou
E o dinheiro se extinguiu?………….Subiu
Logo já convalesceu?…………………Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode?……………….Não pode
Pois não tem todo o poder?………..Não quer
É que o governo a convence?……..Não vence.

Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.”

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Poesia Matemática – Millôr Fernandes

mar 28

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.
Millôr Fernandes

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Charle-se quem puder

mar 21


Irrompamos sem preâmbulos imediatamente ao centro da questão: você sabe o que é charlar? Os mais respeitados almanaques encontrados nas mais empoeiradas prateleiras do mundo registram que o verbo charlar tem origem num jovem de epíteto simplório – meio menudo meio britânico – Charles. A definição semântica do que seja charlar ainda é controversa, e tema tanto retórico quanto empírico em incontáveis centros de pesquisa em todo o globo terrestre. Pra se ter uma dimensão do desarranjo, existem países que ainda não conseguiram encontrar um vocábulo que traduza o verbo charlar em seu idioma. Isso tem tensionado inclusive relações diplomáticas hemisfério afora. A expressão em questão é tão ampla que milhões de pessoas de diversas culturas charlam a torto e a direito na atualidade, numa busca obstinada por conseguir sintetizar um conceito que desvende e catalogue definitivamente o significado deste, porque não, enigma. De qualquer forma, como somos comunicólogos e tudo que é popular muito nos interessa, proponho aqui uma reflexão despretensiosa e, porque não, descabida, quem sabe. Vamos a ela.

Sabe-se que Charles começou a construir o patrimônio imaterial que deu ao mundo ainda infante, quando se propunha a charlar de galera no Iguatemi dia de domingo e bagonhar chocolate descaradamente nas Americanas. Não foram poucas as Semanas Santas que charlou de barão na ilha de Itaparica, na casa do primo. E quando recebia a mesada e liquidava tudo em uma mísera semana, passando o resto do mês duro? Charlação em altíssima medida. Já charlou em festinha de 15 anos no Clube Espanhol, quando entrava sem ser convidado e ainda dançava com a debutante. Charlava embebido de alegria quando os pais viajavam e ele ficava sozinho em casa fazendo não sei o quê. Charlava até na Sabino Silva, no carnaval, enquanto comia dois hot-dog da morte e ficava largando frases chulas para as meninas de família que passavam saltitantes rumo aos seus camarotes. E por falar em carnaval, ave-maria, ai é que a jiripoca pia. Charles já deu uma charlada em cima do trio de Márcia Freire, que numseiquemzinho arrumou; charlou brilhantemente quando apareceu bêbado e rançoso de suor abraçado a Casemiro Neto ao vivo no BATV; e charlou de maneira irrepreensível quando se bateu com Carlinhos Brau na rua e disse a ele que preferia Tonho Matéria. Resumindo a prosa ruim, o vanguardista Charles charlou de tudo quanto é jeito: em passeio de escuna que ganhou num sorteio, no Del Rey 1.8 do cunhado, com o G-Shock falso do irmão mais velho, com seu sapato imitação de Doc Side, com sua calça Laitimbôte feita em casa, sua carteira Fico, sua camisa gola Flamel, sua bermuda Seaway, sua pochete, seu pogoboll, seu skate com rolamento Powell Peralta, seu Odissey segunda mão e, porque não, sua coleção de Ele e Ela com as páginas coladas, etc e tal.

Foi esse desentediante estilo de vida de Charles, antes sui generis, hoje mais apreciado do que água de coco barata, que maravilhou o mundo e segue influenciando o comportamento de pessoas de todas as idades, religiões, classes sociais, estirpes e espécimes. Nem os midiáticos escaparam aos açucarados prazeres da charlação. Cid Moreira desmente, mas a narração que ele fazia de Mister M no fantástico todo mundo tem conhecimento que era charlação. Gene Hackman exigiu que a dublagem brasileira dele no filme do Superman, atuando como o famigerado Lex Luthor, fosse feita por aquela voz árida – que a gente escutava ao assistir a sessão da tarde – com o puro intuito de charlar ao berrar repetidas vezes “Senhorita Teschmacher!! Senhorita Teschmacher!!!”. Quando a bola se enrolava com Dadá Maravilha e entrava toda troncha no gol, aquilo não era carência de técnica do nosso atacante, era charlação pura e cristalina, proposital, legítima. Cada estabanação ali era toda planejada. Na verdade, tem muito mais nesse baú, mas não posso falar senão o pessoal me processa.

Mas, nem tudo é alegria. Algumas situações apressam a necessidade de limitar o significado do verbo charlar. Certa data, um falquejado meu, ébrio até a tampa, numa festinha doida nos inconsequentes tempos de faculdade, se entrosou com uma mulher feia pra caralh… Desculpe, caramba. Ao ser duramente castigado pela rapaziada, ele veio com esse exercício de baianidade:
-Sai daí porra! A mulher é sobrinha de Ricardo Chaves… Charlação otário!

Aí também é demais.

Alesandro Colonnezi – Diretor de Criação

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Dia da Poesia, Casto Alves e Glauber Rocha…

mar 14

Hoje (14), é comemorado o Dia Nacional da Poesia, o aniversário do poeta baiano Castro Alves e do Cineasta baiano Glauber Rocha.

Confiram alguns clássicos.

O povo ao poder – Castro Alves
QUANDO nas praças s’eleva
Do povo a sublime voz…
Um raio ilumina a treva
O Cristo assombra o algoz…
Que o gigante da calçada
Com pé sobre a barricada
Desgrenhado, enorme, e nu,
Em Roma é Catão ou Mário,
É Jesus sobre o Calvário,
É Garibaldi ou Kossuth.

A praça! A praça é do povo
Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade
Cria águias em seu calor.
Senhor!… pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça
Só tem a rua de seu…
Ninguém vos rouba os castelos
Tendes palácios tão belos…
Deixai a terra ao Anteu.

Na tortura, na fogueira…
Nas tocas da inquisição
Chiava o ferro na carne
Porém gritava a aflição.
Pois bem… nest’hora poluta
Nós bebemos a cicuta
Sufocados no estertor;
Deíxai-nos soltar um grito
Que topando no infinito
Talvez desperte o Senhor.

A palavra! vós roubais-la
Aos lábios da multidão
Dizeis, senhores, à lava
Que não rompa do vulcão.
Mas qu’infâmia! Ai, velha Roma,
Ai, cidade de Vendoma,
Ai, mundos de cem heróis,
Dizei, cidades de pedra,
Onde a liberdade medra
Do porvir aos arrebóis.

Dizei, quando a voz dos Gracos
Tapou a destra da lei?
Onde a toga tribunícia
Foi calcada aos pés do rei?
Fala, soberba Inglaterra,
Do sul ao teu pobre irmão;
Dos teus tribunos que é feito?
Tu guarda-os no largo peito
Não no lodo da prisão.

No entanto em sombras tremendas
Descansa extinta a nação
Fria e treda como o morto.
E vós, que sentis-lhe o pulso
Apenas tremer convulso
Nas extremas contorções…
Não deixais que o filho louco
Grite “oh! Mãe, descansa um pouco
Sobre os nossos corações”.

Mas embalde… Que o direito
Não é pasto do punhal.
Nem a patas de cavalos
Se faz um crime legal…
Ah! não há muitos setembros
Da plebe doem os membros
No chicote do poder,
E o momento é malfadado
Quando o povo ensangüentado
Diz: já não posso sofrer.

Pois bem! Nós que caminhamos
Do futuro para a luz,
Nós que o Calvário escalamos
Levando nos ombros a cruz,
Que do presente no escuro
Só temos fé no futuro,
Como alvorada do bem,
Como Laocoonte esmagado
Morreremos coroado
Erguendo os olhos além.

Irmãos da terra da América,
Filhos do solo da cruz,
Erguei as frontes altivas,
Bebei torrentes de luz…
Ai! soberba populaça,
Rebentos da velha raça
Dos nossos velhos Catões,
Lançai um protesto, é povo,
Protesto que o mundo novo
Manda aos tronos e às nações.

Deus e o Diabo na Terra do Sol – Glauber Rocha, 1964

Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro

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Burning man 2011 – tilt shift time lapse

mar 06

um incrível time lapse do festival Burning Man em Tatooine Nevada

*Fotografia Time-lapse é um processo cinematográfico em que cada fotograma ou quadro (frame) de filme é tomado a uma velocidade muito mais lenta do que aquela em que o filme será reproduzido. Quando visto a uma velocidade normal, o tempo parece correr mais depressa e assim parece saltar (lapsing). A fotografia Time-lapse pode ser considerada a técnica oposta à fotografia de alta-velocidade.

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Fotografias de ícones da história

fev 29

Titanic antes de embarcar.

O 1º McDonalds


Che e Fidel


Antes de construir Brasília.


Papa Nuncio Cesare Orsenigo..


Elvis no exército.


Os Beatles.


Muro de Berlin.


Charlie Chaplin e Gandhi

Hitler em Paris 1940

1º avião




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Joshua Bell no Metro – Pérolas a porcos ou falta de contexto?

fev 24

Um homem sentou-se em uma estação de metro em Washington DC e começou a tocar violino; era uma fria manhã de Janeiro. Ele tocou 6 peças de Bach por aproximadamente 45 minutos. Durante esse tempo, considerando que era horário de pico, calcula-se que 1100 pessoas passaram pela estação, a maioria a caminho pro trabalho.

Três minutos se passaram, e um homem de meia-idade percebeu que um músico estava tocando. Ele diminuiu o passo, parou por alguns segundos, e então apressou-se a seus compromissos.

Um minuto depois, o violinista recebeu sua primeira gorjeta de 1 dólar: uma mulher arremessou o dinheiro na caixa e continou a andar.

Alguns minutos depois, alguém encostou-se na parede para ouvi-lo, mas o homem olhou para seu relógio e voltou a andar. Obviamente ele estava atrasado para o trabalho.

O qual prestou mais atenção foi um garoto de 3 anos de idade. Sua mãe que o trazia, o apressou, mas o garoto parou pra olhar o violinista. Por fim, a mãe o empurrou fortemente, e a criança continuou a andar, virando sua cabeça a toda hora. Essa ação se repetiu por muitas outras crianças. Todos os pais, sem exceções, os forçaram a seguir andando.

Nos 45 minutos que o músico tocou, apenas 6 pessoas pararam e ficaram lá por um tempo. Aproximadamente 20 o deram dinheiro, mas continuaram a andar normalmente. Ele recebeu $32. Quando ele acabou de tocar, ninguém percebeu. Ninguém aplaudiu, tampouco houve algum reconhecimento.

Ninguém sabia disso, mas o violinista era Joshua Bell, um dos mais talentosos músicos do mundo. Ele acabara de tocar umas das peças mais difíceis já compostas, em um violino que valia $3,5 milhões de dólares.

Dois dias antes dele tocar no metrô, Joshua bell esgotou os ingressos em um teatro de Boston onde cada poltrona era aproximadamente $100.

Esta é uma história real. Joshua Bell tocou incógnito na estação de metrô, que foi organizado pelo Washington Post como parte de um experimento social sobre percepção, gosto, e prioridade das pessoas. O cabeçalho era: no ambiente comum em uma hora inapropriada: NÓS PERCEBEMOS A BELEZA ? NÓS PARAMOS PARA APRECIÁ-LA ? NÓS RECONHECEMOS TALENTO EM UM CONTEXTO INESPERADO ?

Uma das possíveis conclusões desse experimento poderia ser:

SE NÓS NÃO TEMOS TEMPO PARA PARAR E OUVIR UM DOS MELHORES MÚSICOS DO MUNDO TOCANDO ALGUMAS DAS MELHORES MÚSICAS JÁ COMPOSTAS, QUANTAS OUTRAS COISAS MAIS NÃO ESTAMOS PERDENDO ???

Tradução: Sammy Damaxx

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Laboratório farmacêutico japonês, desenvolveu um mapa da gripe no país através do Twitter.

fev 23

Kazemill, é um mapa da saúde que adverte sobre a propagação da doença no Japão, com base em tweets das pessoas. O serviço de mídia social tem sido desenvolvido pela McCannHealthcare Worldwide para a empresa farmacêutica japonesa Japan SSP.

Kazemill monitora tweets que mencionam vários sintomas de gripe e  através de um algoritmo aplica-o a um mapa em tempo real em 3D do país para mostrar como e onde a doença está se espalhando. Os pontos laranja no mapa traduz a coceira na garganta, o verde representa corrimento nasal, as roxas para a tosse e vermelho indica febre.
Por agora, o mapa está disponível apenas para o Japão, mas o cliente tem planos de expandi-lo internacionalmente no próximo ano.

Bem legal!

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Postado por: tempopropaganda
 
 

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