Tenda dos Milagres
Este ano comemoramos o centenário de Jorge Amado. Apresentar o escritor é chover no molhado de clichês que infestam as matérias sobre a data.
O que não deixa de ser verdade, mesmo sendo um clichê, é que Amado inventou uma Bahia cada dia mais difícil de ser encontrada, se é que um dia ela já existiu.
Entre opiniões de defensores e detratores, e olhe que são muitos, e não é meu interesse discutir a obra do escritor, sobram histórias sensacionais como Capitães da Areia, Jubiabá, Dona Flor e seus dois Maridos, A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água, Os Pastores da Noite e por aí vai. Falo dos livros passados em Salvador porque foram os que eu li, na minha eterna busca de encontrar a Salvador perdida em nossa memória afetiva. Quem me conhece sabe do que estou falando. Dos livros passados em Salvador, o que mais gosto é Tenda dos Milagres. Por vários motivos, que como falei, não vou discutir neste espaço. Destaco resumidamente dois fatores: o primeiro, a construção do romance, com a história se passando em dois tempos distintos; e o outro, a crítica mordaz a esse monstro que genericamente chamamos de “mídia”. Pra quem não leu ou não conhece, um pequeno resumo: por conta da passagem de um célebre etnólogo americano por Salvador e sua admiração por Pedro Archanjo, arma-se um circo pra comemorar o centenário do célebre baiano.
Detalhe, ninguém na Bahia sabe quem é Pedro Archanjo. Pronto. Está armado o palco pra Amado deitar e rolar com sua crítica à sociedade baiana do período em questão. A saber: o ano de 1969. E uma das áreas mais criticadas pelo romancista é justamente a publicidade. Sem dó nem piedade, Jorge Amado reduz a pó nossa profissão ou a imagem cheia de clichês que a atividade publicitária carrega. Óbvio que o escritor compartilha dessa visão que a sociedade tem do publicitário, então a crítica termina sendo mais direcionada aos ditos clichês do que a realidade de nossa profissão. Mas duvido que lendo o trecho abaixo da obra em questão o leitor-publicitário não reconheça algum colega de profissão, ou pelo menos alguma característica de alguém que pode estar sentado do nosso lado agora.
Boa leitura, garanto que vocês vão se divertir. E boa reflexão.
Carlos Mattos “Chacal” – Diretor de Arte
O rosto cheio, aparentando energia e eficiência, rompendo-se afável em riso e palavrões, frondosos bigodes e evidente começo de calvície, sinais de prematura obesidade e camisa molhada de suor, Gastão Simas, gerente para a Bahia da Doping Promoção e Publicidade S.A., dirige-se a seus auxiliares, grupo compacto integrado por cinco capacidades, cinco ases, cinco imbatíveis, e lhes comunica os resultados da reunião da Comissão Executiva responsável pelas comemorações do centenário de Pedro Archanjo. Agora, cabe a eles, àqueles cinco crânios regiamente pagos, colocar de pé o outro lado da promoção, o único a contar verdadeiramente: o empresarial, o dos anúncios, o que possibilita a grana, o faturamento. Gastão Simas rola na boca, sob os bigodes, a palavra chave: faturamento tem-se a impressão que degusta ambrosia ou caviar, um gole de vinho de cepa rara: ¬ O espaço de cinco páginas, em cada suplemento de oito, é reservado aos anúncios. O quarto e último suplemento terá doze páginas e nos caberão de sete a sete e meia, poderemos chegar até oito, se necessário. Ademais, meus queridos, não devemos nos limitar aos suplementos. O campo é livre, é preciso soltar a imaginação, criar, ser artista! Ao trabalho, meus filhos, sem perda de tempo. Quero resultados concretos em prazo mínimo. Eficiência e qualidade é o nosso lema, não se esqueçam. Tendo dito, retorna a seu gabinete, aderna na poltrona. Gastão Simas era homem de qualidade e eficiência; trabalhador, inteligente, imaginoso. Quando entregue ao exercício da autocrítica, via-se no entanto obrigado a constatar não ser aquele o ofício para que nascera, o meio-de-vida capaz de apaixoná-lo. Exercia-o por necessidade e vanglória: proporcionava-lhe alta remuneração e prestígio social. Por seu gosto, continuaria na banca do jornal onde começara ganhando aviltante salário mas desobrigado dessa máscara de pró-homem tão pouco adaptável a seu rosto prazenteiro, folgazão, para quem o prazer da vida era uma partida de dominó na porta do Mercado Modelo, um trago e uma festa, um bate-papo sem compromisso. “Sou baiano demais para essa profissão”, confessara certo dia a um dos seus rapazes, o jovem Arno, simpatia de carioca e um clássico da propaganda. Que fazer? Ora, que pergunta, meu bom Gastão: fazer das tripas coração, a gerência da Doping significa dinheiro grande e status invejável. Impotente servo em sua sala, GS fita a paisagem do golfo, o forte do mar, a ilha verde e os barcos em pacífica travessia. A sala é uma ostentação de riqueza e de poderio ¬ móveis de jacarandá, tapete de Genaro: um pássaro audaz, um inseto cruel de Mário Cravo, em madeira e ferro, e a fulva secretária. Profissão por profissão, arte por arte, ainda é esta a mais rendosa. A arte principal do nosso tempo. Todos sabemos, e nem o mais ordinário dos patifes se atreve a contestar, ser a arte da propaganda a mais eminente e augusta: nenhuma se lhe compara ¬ nem a poesia, nem a pintura, nem a novelística, nem a música, nem o teatro, sequer o cinema. Quanto ao rádio e à televisão, pode-se dizer serem parte intrínseca da propaganda, sem existência autônoma. Pintor algum possui a técnica criadora dos plásticos da publicidade: nas agências pululam os Picassos. Não há escritor capaz de igualar-se aos que redigem anúncios; não há estilo, em prosa e verso, com os recursos de imaginação, o realismo e o surrealismo, a comunicabilidade desse textos das agências onde dúzias de Hemingways criam a nova literatura. De que vale esconder a verdade se ela se impõe à luz do sol, fulgurante e vital? Da propaganda dependem inclusive os Picassos e os Hemingways, muitos deles fabricados nos escritórios de publicidade, que os projetam e popularizam num abrir e fechar de olhos. Durante uns meses, pelo menos, o nome do pintor ou do escritor permanecerá no aplauso. E na admiração das massas e dos basbaques. Desaparece, depois, afinal ninguém é Deus para tirar do nada literatos e plásticos, e mantê-los interminavelmente na crista da onda e nas colunas! Mas o promovido teve seu momento, sua oportunidade, tanto maior quanto mais possa dispender. O resto é problema deles, é saber administrar-se: basta lançar a vista pela praça das vaidades para perceber-se a maciça afluência daqueles vigaristas, daqueles sabidórios nascidos nas chocadeiras das agências e que, bem gerenciados em sua falta de talento, em sua sem-valia, brilham e faturam na maciota, sem ter de se matar em duas Faculdades e em várias turmas maratona para quadrados e tolos, tipo Calazans, sem o menor préstimo para o arrivismo indispensável, para a pilantragem, expressão maior de nossa época, de nossa admirável, benemérita, nunca suficientemente louvada sociedade de consumo. Arno, aquele raio de menino, importado do Rio, pena molhada em uísque escocês legítimo, foi o primeiro a deslumbrar Gastão Simas com o resultado de dois ou três dias de trabalho intenso, de reflexão profunda, ilimitada fantasia. Colocou em cima da mesa do big shot a folha de papel e nela estava escrito em grandes caracteres este genial achado: “Traduzido ao inglês, ao alemão, ao russo PEDRO ARCHANJO É FONTE DE DIVISAS para o engrandecimento do Brasil também é fonte de divisas A COOPERATIVA DOS EXPORTADORES DE CACAU”. Fenômeno! ¬ aplaudiu Gastão: ¬ Você é o maior. Outros resultados, igualmente grandiosos, se sucederam, mas há de reconhecer-se a prioridade de Arno, jovem príncipe da publicidade, bárbaro talento, salário de meia congregação de uma Faculdade. Vale a pena relembrar, em benefício do alevantamento cultural dos leitores, alguns dos textos de maior sucesso: “Brinde o centenário de Archanjo com chope Polar”. “Se fosse vivo Pedro Archanjo escreveria seus livros com máquinas elétricas Zolimpicus”. “No ano do Centenário de Archanjo, o Centro Industrial constrói a nova Bahia”. “Em 1888 nasceram dois gigantes na Bahia: Pedro Archanjo e a Archote Seguros Ltda.” Não satisfeito com o triunfo inicial, Arno, criou outra maravilha ¬ a transcrição diz melhor do que qualquer adjetivo: “Archanjo anjo estrela estrela stela stela CASA STELA CASA STELA há quatro gerações calça anjos e arcanjos em cinco suaves prestações.” Foi ele próprio, gentil e contente de sua criação, levá-la ao Cliente, o proprietário do negócio de sapatos, que o recebeu de evidente mau humor estava fazendo regímen para emagrecer e não há coisa pior para o caráter dos indivíduos. O tipo, um cinqüentão de espessas sobrancelhas e anel de grau, mediu a elegância do peralta, sua fleugmática suficiência, balançou a cabeça com desesperança, disse: ¬ Sou um velho, alquebrado e faminto, o senhor é jovem, bonito, elegante, com bafo de uísque e acarajé, sábia combinação; mas permita que eu lhe diga: seu anúncio é uma bosta, Disse de tal maneira, com tão falsa humildade e brusca violência, que Arno, em vez de se ofender, caiu na gargalhada. O Cliente detalhou: Meu fidalgo, as Casas Stela são três, não apenas uma como o anúncio dá a entender. E nem de uma sequer seu anúncio revela o endereço. Não fala de sapatos ¬ meu comércio é de sapatos, digo para seu governo, creio que o senhor não sabia. Há, em verdade, leve referência ao assunto, o verbo calçar na terceira pessoa do indicativo: “calça”, facilmente confundível com calça e paletó. Ficaste sem saber se é loja de sapatos ou alfaiataria. Aqui entre nós, eu faço melhor e mais barato. Não foram às bofetadas, desiludindo mais uma vez os empregados, sempre na esperança de ver um dia o patrão embolar em luta corporal; ao contrário, juntos retrabalharam o texto e depois partiram rua a fora, no fim da tarde, quando a viração chega do mar e sobe pelas ladeiras. “Gosta de antiguidades?”, perguntou-lhe o comerciante. “Sou mais do modernismo”, confessou Amo, mas foi com o rabujento aos antiquários, em ruelas e becos pela primeira vez entrava num bric-a-brac. Viu lampiões arcaicos, navetas de prata, anéis, jóias mirabolantes, bancos e marquesas, pinhas de cristal, gravuras de Londres e de Armsterdam, um oratório pintado à mão e um santo de madeira, antigo. Amo obteve de súbito o condão da beleza. No dia seguinte, no escritório, sujeitando o layout reformulado à aprovação final de Gastão Simas, Arno Melo lhe disse: Meu velho, você é quem tem razão: na Bahia não há clima para esse troço, não dá pé. Se eu tivesse um jeito, largava essa merda, ia bater pernas pelas ruas. Me diga uma coisa, Gastão: Você já viu a fachada da Igreja da Ordem Terceira? Porra!, menino, eu nasci aqui. ¬ Pois eu já fiz um ano de Bahia, já passei por ali mais de mil vezes, e nunca tinha parado para reparar e ver. Sou um cavalo, seu Gastão, um animal, um infeliz, um filho-da-puta de agência de publicidade. Gastão Simas suspirou: assim não era possível.
Autor – Jorge Amado
















